Goancauses Home
CONSTÂNCIO ROQUE MONTEIRO
(1907-1980)
Constâncio Roque da Purificação Monteiro, filho de
António Vicente Galdino da Purificação Monteiro e de Teresa Emiliana Monteiro,
nasceu a 1 de Agosto de 1907 em Loutolim, concelho de Salcete, distrito de Goa,
antigo Estado da Índia. Fez os seus estudos secundários no Liceu de Nova Goa e
ingressou na Escola Médico-Cirúrgica de Goa onde concluiu em 31 de Maio de 1931
a sua formação em Medicina.

Logo após a sua
formatura dedicou-se ao exercício da clínica médica em diversas localidades do
concelho de Salcete, nomeadamente Nagoá de Vernã, Bambordá, Vernã, Velsão e
Cansaulim.
Em 1947 passou a
residir em Bicholim por ter sido convidado pelo senhor Dr. José Silvestre
Ferreira Bossa, Governador-Geral do Estado da Índia para desempenhar as funções
de Administrador do Concelho de Bicholim e cumulativamente as de Presidente da
Comissão Municipal do mesmo concelho. Enquanto desempenhou tais funções muito contribuiu
para o desenvolvimento sócio-económico do concelho; foi durante o seu mandato que o concelho recebeu a visita do
então Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues, e viveu momentos
marcantes que ficaram assinalados com numerosas iniciativas e inaugurações de
diversos melhoramentos, dos quais é de assinalar uma moderna fábrica de
assadura e empacotamento da castanha de cajú "ZANTYE", que foi a
primeira unidade industrial do género a ser construída em Goa.
Em 1954 regressou a
Nagoá de Vernã retomando o exercício de clínica
médica na aldeia da sua residência e também em Bambordá, Vernã, Velsão e
Cansaulim.
De 1958 a 1968
dedicou-se, em simultâneo com a clínica médica ao ensino secundário no
Externato Abade Faria, em Margão.
Foi um grande apaixonado
pela literatura tendo publicado diversas obras das quais merecem especial
destaque:
- "A Epopeia
do Escravo". Pe. José Váz
no quadro geográfico, histórico, religioso e psicológico da sua época. [Edição da Biblioteca Xaveriana.
Pilar: Tip. Xaveriana, 1957, 22 x 14 cm., 357 p. descrevendo a actividade
missionária de Pe. José Váz no Ceilão]
“Galeno tem
Coração", Colectânea de poemas. Bastorá: Tip. Rangel, 1942, Com
ilustrações de Constâncio Fernandes e Mulgãokar;
“Cântico Azul”,
Colectânea de poemas, Margão:
Tip. Hindu, 1948.
“As Maravilhas do Céu”. [Extrato de "Christianisme dans les
temps présents por Mons. Bougaud (vol. V)]. Tradução de [...] Margão: Tip.
Gomantak, s.d., in 8º, 23 p. Fasc. III da "Colecção A Voz do Céu".
-“As Florinhas
da Minha Aldeia” (publicação do Autor).
Não ficou por aqui a sua actividade no domínio das
letras, porque deixou escritos variados contos e peças de teatro, que
infelizmente não foram publicadas, como é o caso do “O Rabicho do Botto”.
Também compôs letra e música para variadas canções de
cariz popular e escolar, algumas das quais foram divulgadas na Emissora de Goa.
Deu uma longa e
variada colaboração literária a imprensa escrita com destaque entre outros ao
jornal diário “A Vida”, ao semanário “A Índia Portuguesa” ambos editados na
cidade de Margão e também ao semanário “Vauraddeanchó Ixtt – Amigo dos
Operários”, editado em Pilar. Foi colaborador da Emissora de Goa.

Dr.
Constâncio Roque Monteiro e sua esposa D. Berta Rego
O canto e a música
eram seu passatempo favorito, sendo o violino o seu instrumento musical
predilecto; quem o conheceu não pode esquecer o entusiasmo e apoio que dava às
animadas e divertidas serenatas que a sua irmã Cristina organizava no balcão da
sua casa de Nagoá, nos quentes meses de Abril e Maio, na companhia dos seus
filhos e sobrinhos.
Sendo um homem de
profundas convicções religiosas e um praticante convicto, escreveu e musicou
numerosos hinos e cânticos religiosos dos quais o mais conhecido e divulgado foi um hino dedicado a sua
Excelência Reverendíssima D. José da Costa Nunes, na altura Arcebispo de Goa e
Damão, Patriarca das Índias Orientais e Primaz do Oriente.
Casou com a senhora
D. Berta Rego, de Vernã (Poriebatt) e os seus filhos vivem actualmente na Índia
(Goa e Barodá), Portugal (Lisboa), Brasil (Rio de Janeiro) e Estados Unidos.
Era o irmão mais
velho de Agostinho (casado com Elvira Velho e pai de cinco filhos), médico em
Betalbatim, Majordá, Utordá, Nagoá e Pangim e director do jornal “Diário da
Noite”; Lucino, sacerdote católico, Maria Cristina, professora de ensino
primário, antes citada, e Ângela, freira carmelita, professora e directora de
vários colégios carmelitas (Carmel Colleges), que é presentemente a única
sobrevivente de entre os irmãos. Faleceu em Nagoá de Vernã, a 2 de Janeiro de
1980.
Prestando homenagem a um dos mais ilustres filhos da nossa terra damos a conhecer a todos quantos apreciam a poesia e muito em particular aos nossos conterrâneos, uma pequena parcela da sua rica obra literária, através destes sugestivos poemas da sua autoria:
Bendigo-te ó luz no alvor
das madrugadas,
Quando, num sonho carinhoso
e mudo
Depões nas minhas pálpebras
cerradas
Um beijo, de oiro, um beijo
de veludo!...
Bendigo-te ó luz ao raiar da
aurora;
Não nos ninhos que o teu
dedo desperta
Não na poesia trémula,
sonora
Com que enches do mar a
amplidão deserta!
Mas bendigo-te ó luz
imaculada
No teu sorriso manso que me
exorta;
Bendigo-te no enfermo que
vem cada
Dia, gemendo, bater a minha
porta!...
Bendigo-te no olhar dessa
criança
Que nem fala mas que eu
entendo bem;
Que implora uma gota de
esperança
Para essa pobre meio-morta,
sua mãe!...
Bendigo-te na chaga
dilacerante
Que brotou doutra chaga
interior;
Quando a guias para mim, ó
nesse instante
Mais me sinto a imagem do Redentor!...
A um canto senil de uma
triste gaveta
Arranco muita vez uma página
amarela;
E releio, releio de alma a
tremer-me inquieta
Uns versos que há vinte anos
consagrara a ela...
Que tolices, meu Deus ! Que
suspiros por vê-la
De leve blusa azul e de
fitinha preta !...
Que entusiasmos pueris pela
trança tão bela
Que o meu olhar cobria de
carícia discreta!...
Lento, dia após dia, ano
após ano passa
Sobre essa página sem luz e sem graça
Nebulosos arrufos que
ainda sei de cor...
E, no entanto, releio-o
vacilando. E não posso
Que outra vez não reviva o
confuso alvoroço
Do que eu
chamava então o meu único amor!...
(Extraído do livro Cântico Azul, pág. 13)
Arrozais de oiro é vê-los ao
sol pôr!
Dir-se-iam bandos de antigos
peregrinos
Ciciando em salmos de paz e
de dor
A nostalgia dos seus longos
destinos...
Com que ânsia os contempla o
lavrador!
O pão dos seus bois, pão dos
seus meninos!
Tem a prece o vigor rubro
dos hinos!...
Vai morrendo o dia nos
confins do céu
E, cá em baixo a doce
espiga- véu
Côr de sol com uma alma de
luar
Lembra, curvado em sonho
triste e mudo,
O amor forte que deu já um
dia tudo
E ainda chora por não poder
dar!...
(Extraído do livro Cântico Azul, pág. 28)
Francisco da Purificação
Monteiro
Lisboa, 01.08.2005