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ACHARYA DHARMANANDA KOSAMBI

 

 

 

Acharya Dharmananda Kosambi, filho de Damodar Shenoy nasceu a 9 de Outubro de 1876, na aldeia de Sancoale, concelho de Mormugão, distrito de Goa, antigo Estado da Índia. A sua família tinha poucos recursos por isso passou a sua infância e adolescência ajudando os pais a regar os viveiros e plantações de coqueiros na sua aldeia natal; a sua instrução não passou da frequência de um trimestre escolar. Seguindo os costumes da época casou muito novo quando apenas tinha 16 anos.

Apesar das dificuldades e de uma vida dura a que estava sujeito ele não se desanimou e como tinha uma grande ânsia de aprender sozinho começou a ler livros em marata. Por uma feliz coincidência ele teve oportunidade de ler um artigo sobre a vida  de Gautama Buddha o que foi determinante para a mudança completa da sua vida que o levou a tomar a decisão de estudar os ensinamentos de Buda, tendo por esse motivo seguido para Puna na antiga Índia Inglesa, para se aconselhar com o grande orientalista e estudioso da língua sanscrita Dr. R. G. Bhandorkar, que por sua vez o aconselhou a ir a Benares para estudar sanscrito porque os conhecimentos desta língua o iriam ajudar muito no estudo da língua Pali e textos Budistas. Depois de uma longa e cansativa marcha a pé ao longo e alimentando-se com os donativos que lhe eram dados chegou por fim a Ujjain em Varanasi e começou  estudar com grande entusiasmo a gramática da língua sanscrita  e os textos sagrados. A sua principal ambição estava longe de ter sido alcançada; ele queria estudar as origens do budismo em Pali, mas a língua pali e o Budismo há já séculos que tinham desaparecido da Índia. Para evitar novas desilusões mas com o firme desejo de estudar o Budismo seguiu de Varanasi para o Nepal, mas uma vez mais os seus desejos ficaram por concretizar; como era um homem decidido não se desanimou por não ter conseguido o que pretendia e seguiu para Calcutá onde foi informado que o lugar mais indicado e onde teria maiores probabilidades de estudar Budismo na sua forma primitiva era o Ceilão (Sri Lanka); determinado a alcançar os seus objectivos não hesitou e seguiu para o Ceilão, onde foi admitido na Universidade Vidyodaya que era dirigida pelo conhecido estudioso de pali e budismo, Sumangallacharya.

Em apenas três anos tornou-se mestre em língua pali e em todas obras sagradas compiladas em três Pitakas que em sanscrito significam “As Três Secções das Escrituras Budistas”: a Sutra-Pitaka (Sermões), a Vinaya-Pitaka (Preceitos da Fraternidade Budista) e a Abhidarma-Pitaka (Comentários).

Como já dominava perfeitamente a língua sanscrita especializou-se em Visuddi Magga (Vishuddhi Marga em sanscrito), que é uma compilação de todos os ensinamentos de Buda, editada no século V por Buddhaghoshain. Converteu-se ao budismo tendo recebido a iniciação através do seu grande Guru e assumiu o nome de Dharmananda.

De seguida foi para a Birmánia (Myanmar) onde fez estudos comparativos dos textos budistas na língua birmanesa. Aí conheceu um monge budista alemão, com que fez a aprendizagem da língua inglesa e em poucos meses passou a falar fluentemente o inglês. Ao fim de sete (7) anos em terras estrangeiras regressou a Índia já como mestre em língua pali bem como nas línguas singalesas e birmanesa. Os seus profundos conhecimentos de pali ajudaram a conseguir um cargo muito bem remunerado como leitor na Universidade de Calcutá; esta situação permitiu-lhe trazer para viver junto de si a mulher e o filho Manik; em 1907 nasceu o seu filho Damodar que viria a doutorar-se e ser conhecido como matemático, historiador e também estudioso de sanscrito.

Kosambi tinha o gosto de viajar, conhecer novos lugares, encontrar e conhecer pessoas; queria consagrar a sua vida ao estudo e propagação do Budismo. Aceitou uma bolsa  de 50 rupias mensais para se dedicar a investigação em Barodá, viajando e ensinando na Índia Ocidental, mas acabou por se fixar em Bombaim. Mais uma vez foi bafejado pelo destino porque nesta altura estava naquela grande cidade o Dr. James Wood da Universidade de Harvard que estava procurando alguém que fosse adepto e estudioso em sanscrito, ardhamagadhi e pali; Kosambi depois de apresentar o seu curriculum foi convidado para ir a Harvard para ajudar a traduzir e editar Vishuddhi Marga para a língua inglesa; não só completou com sucesso a tarefa, mas aproveitou a sua estadia para estudar a língua russa e os ensinamentos de Marx. Seguiu para a União Soviética e foi convidado a ensinar pali na Universidade de Leninegrado hoje rebaptizada com o seu nome inicial de S. Petersburgo.

Regressou posteriormente a Índia quando a luta pela independência estava no seu auge e sob a influência de Gandhi foi nomeado para leccionar sem remuneração na Universidade de Gujarat. O chamamento da liberdade era grande por isso começou a recrutar voluntários para a marcha do sal – Salt Satyagrha, onde ele próprio participou, tendo em consequência disto sido detido por um período de seis anos.

As suas pesquisas e traduções de obras Budistas continuaram e contribuíram para uma maior divulgação do Budismo que anteriormente só era conhecido pelas traduções e interpretações de autores ocidentais; as suas interpretações eram puramente indianas baseadas nos seus conhecimentos de sanscrito e pali. Ele era destemido e honesto e muitas das suas conclusões chocavam os tradicionalistas incluindo alguns budistas e jainistas. Mas ninguém podia duvidar dos seus conhecimentos tendo continuado a traduzir muitas obras budistas e jainistas com notas muito detalhadas.

A longa associação com estas duas religiões (budismo e jainismo) deixaram nele profundas marcas de tal modo que ele primeiro renunciou o mundo material e desejou encontrar o caminho da libertação mas felizmente Gandhi aconselhou-o a não levar por diante o seu propósito, tendo então fundado a “Bahujanavihara”, uma casa abrigo para monges budistas em Bombaim, que passou a receber pessoas oriundas de todas as partes do mundo.

O estatuto de Goa como colónia portuguesa também era motivo da sua preocupação e ele quis iniciar o movimento de libertação da sua terra natal tal como Gandi fizera em relação a Índia Inglesa, mas a sua idade avançada e o seu débil estado de saúde não permitiram a concretização deste seu desejo porque veio a falecer em Sevagram (Wardha) a 5 de Junho de 1947, exactamente dois meses e meio antes da independência da Índia. Foi um fiel seguidor dos ensinamentos de Buda e apóstolo de não violência.

A sua obra “Bhagavan Buddha” escrita originalmente em marata foi traduzida para inglês e em todas as línguas indianas pela Central Sahitya Academy  de Nova Delhi. Ele também é autor de 11 livros sobre o Budismo e Jainismo. A sua autobiografia em marata, intitulada “Nivedan” apresenta retratos da vida social nos finais de século XIX em Goa.

Kosambi filho de uma família de fracos recursos económicos, tendo começado a estudar somente aos 23 anos de idade, sem qualquer espécie de ajuda foi pelo seu trabalho, dedicação e  grande perseverança um homem que atingiu os seus objectivos e por isso é um verdadeiro exemplo para todos nós.

 

Francisco Monteiro

Lisboa – 31.03.2004