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ANTONIO BERNARDO BRAGANÇA PEREIRA
António Bernardo Bragança Pereira filho de António Félix Pereira e de Júlia Adelina Bragança, nasceu em 9 de Maio de 1883 em Utordá, concelho de Salcete, distrito de Goa, antigo Estado da Índia; fez os seus estudos secundários no Liceu Nacional em Pangim seguindo depois para Coimbra onde se formou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Iniciou a sua brilhante carreira de magistrado e foi sucessivamente juiz municipal em Mormugão entre 1909 e 1915; Delegado do Procurador da República em Bicholim (1915-1916); juiz de Direito em Damão (1916-1920), Bicholim (1920-1924) e Bardês (1921); Juiz Desembargador da Relação de Moçambique (1924-1931) e finalmente Juiz Desembargador da Relação de Goa (1931-1948), data em que se aposentou.
Em 1929 foi eleito pelas Relações do Ultramar vogal do Conselho Superior Judiciário das Colónias; Presidente da Comissão permanente de Arqueologia desde 1931 a 1951. Por Diploma Legislativo de 28.09.1934 continuou como presidente da Comissão de Arqueologia e publicou o “Arquivo Português Oriental” onde narrou e anotou os documentos referentes à história da índia Portuguesa.
Em 1938 foi escolhido sob proposta do Professor H. Temperlay da Universidade de Cambridge, para representante da Índia Portuguesa no Comité Internacional des Sciences Historiques, com sede em Zurique, Suiça.
Foi vogal dos Congressos Provinciais da Índia Portuguesa em que apresentou várias memórias e colaborou em vários jornais, designadamente no “Debate” e no “Heraldo”.
Homem de rija tempera, travou duras batalhas em prol do seu ideal servindo-se da sua invulgar cultura e de uma poderosa dialética, diante da qual muitas vezes os seus adversários cederam proclamando a legitimidade do seu pensamento. Pertenceu a uma época e a uma geração que poderia servir de modelo aos intelectuais goeses.
Quando em 1944, o nacionalismo indiano procurou infiltrar-se em Goa lançando a semente da sua política de absorção, enquanto alguns membros da sua família se compraziam ostensivamente no movimento, Bragança Pereira, com denodo próprio dos valentes do pensamento, com desassombro e energia de almas patrióticas que sacrificam tudo pelo seu ideal, lançou um nobre repto que vibrou como um toque de chamada: “A Índia Portuguesa tem o direito de afirmar a sua personalidade, porque tem outras tradições, outra cultura e outra consciência colectiva. A nossa terra é pequenina, mas é linda; podemos dizer com Alfred Musset “Mon verre n’est pas grand, mais je bois à mon verre”. A Índia Portuguesa é uma criação de Portugal.
Bragança Pereira foi um grande magistrado; da sua cultura jurídica, lega a posteridade valiosos trabalhos em livros, sentenças e acórdãos que atestam o seu saber e a força da sua lógica, aliados a um profundo sentimento de justiça e integridade.
Era um grande estudioso que mesmo quando já estava gravemente enfermo passava grande parte do dia nas bibliotecas, esquecido a uma mesa com o seu livro de apontamentos.
A par da cultura jurídica, dedicou-se exaustivamente ao estudo da História, legando à posteridade vasta e valiosa bibliografia sobre a acção dos portugueses no Oriente. Foi presidente do ”Oriente Português” órgão da Comissão de Arqueologia no qual deixou obra perdurável com a publicação de 28 números, as “II Séries” da Revista “O Oriente Português”, colaborando nela com trabalhos documentados de alto valor histórico da influência dos Portugueses no Oriente e escritos de forma verdadeiramente científica
A “Etnografia da Índia Portuguesa”, o prefácio do “Arquivo Português Oriental” e as memórias sobre a vida administrativa, política, religiosa e social desta terra através dos séculos marcam a sua personalidade de verdadeiro historiador que não se limitou a amontoar factos revestindo-os com as galas de estilo e de imaginação, mas submeteu-os ao rigor de processos da crítica histórica.
Neste estudo criterioso e conscencioso da acção dos portugueses no Oriente, que é uma obra indispensável para quem queira estudar a história de Goa, se filia o portuguesismo de Bragança Pereira, que mostrou sempre que Goa é criação de Portugal.
Outros trabalhos do autor são “Goa Portuguesa”, uma memória enviada ao “Colloqium Luso-Brasileiro”, realizado em Washington em 1950 e o esboço histórico “S. Francisco Xavier”, edição comemorativa da Exposição das Relíquias do Apóstolo das Índias. Neste último trabalho conclui o autor com as seguintes palávras que sintetizam o anseio da sua alma portuguesa: Abordando o problema das nacionalidades, “Qu’est-ce qu’une nation ?”, chegou Renan à conclusão de que a nação é uma unidade espiritual fundida pelas tradições e pela História. Diz Bragança Pereira “ A história da Índia Portuguesa é uma história de quatro séculos e meio – quase metade da idade de Portugal. Faleceu em Bangalore em 16 de Março de 1955 e foi grande entre os grandes vultos da nossa terra.