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ANGEDIVA

 

 

No passado dia 2 de Fevereiro comemorou-se a tradicional festa da Nossa Senhora das Brotas na igreja da ilha de Angediva, este ano com rigorosas medidas de segurança impostas pelas autoridades da marinha indiana, que impediram que cerca de uma centena de devotos entrassem na ilha. Desde que foram iniciadas as obras da construção da base naval Sea Bird (Karwar) a marinha indiana tem posto uma série de entraves a realização da festa e tem feito numerosas tentativas para a demolição da centenária e porventura a mais antiga igreja construída na costa do Malabar.

Esta é uma boa oportunidade para dar a conhecer a todos os nossos conterrâneos um pouco sobre o que é  e o que representa a ilha de Angediva, para nós goeses e por isso tomamos a liberdade de escrever este pequeno resumo sobre a ilha.

A ilha de Angediva está situada na costa de Malabar, 2 milhas a Sul de Karwar, na latitude 14º 45’ N e 74º 10’ E de longitude e fica a 70 quilómetros de Pangim.

A ilha mede no seu maior comprimento 1300 metros desde o limite Oriental na ponta de fora, até ao ponto mais Ocidental da ilha e 300 metros de largura média desde o antigo baluarte de S. Francisco até a depressão da escarpa da bateria da peça, o que em projecção horizontal equivale a uma superfície de 39 hectares.

Existem na ilha  duas grandes nascentes de água potável, três poços e um grande tanque ou reservatório que fica localizado na parte superior da colina; este reservatório foi mandado construir pelo Conde D’Alvor.

A ilha é de um verde luxuriante com diversas variedades da flora local onde podem ser vistas muitas palmeiras e algumas mangueiras, jaqueiras, tamarindeiros e bananeiras.

 

 

Mapa da ilha de Angediva desenhado por A. Lopes Mendes

 

Em 1863 a população desta ilha era de 198 habitantes e constituía 1 freguesia; em 1881 a sua população tinha diminuído para 93 habitantes que habitavam em 34 fogos.

Foi numa das praias de Angediva que desembarcou D. Francisco de Almeida aos 13 de Setembro de 1505, onde mandou construir uma pequena fortaleza, que no entanto por dificuldades de vária ordem foi demolida sete após a sua construção.

Quando a ilha foi conquistada pelos portugueses era habitada por piratas mouros que fugiram para o Canará. Aquando da entrega de Bombaim aos ingleses como dote de casamento da princesa Catarina de Bragança com o Rei da Inglaterra Carlos II por virtude do Tratado de 23 de Julho de 1661 e por o Vice-Rei António de Mello e Castro ter ao princípio recusado entregar Bombaim, as naus que transportavam as tropas inglesas comandadas pelo general Sir Abraham Shipman se acolheram na ilha de Angediva para se defenderem da rigorosa monção que se fazia sentir na altura.

O general  bem como muitos oficiais e soldados  acabaram por morrer devido a dureza do clima e más condições de alojamento. Os ingleses saíram da ilha em 1665.

Rezam as crónicas que a ilha atingiu o seu maior desenvolvimento de sempre em 1768, chegando a possuir um governador de praça com o seu estado maior e 350 soldados.

Em 1856 foi a ilha atingida por uma grande epidemia cujas causas são atribuídas a localização do cemitério junto da fonte que abastecia a população. Em consequência disto a pouco e pouco a ilha foi entrando em decadência.

 

Uma paisagem deslumbrante da ilha de Angediva

 

Depois da mudança do cemitério da parte superior da montanha para a vertente norte da ilha as condições de habitabilidade melhoraram significativamente, mas a população que se tinha refugiado em Pangim no bairro da Fonte de Boca de Vaca já não quis regressar a ilha; em 1954 quando apenas viviam lá uns poucos militares reformados houve várias incursões das forças indianas e por esse motivo foi colocado na ilha um pequeno destacamento militar com a missão de garantir a soberania portuguesa. As ligações com Goa eram garantidas pelos “avisos” da marinha portuguesa que estavam em Goa; na época das monções a ilha ficava completamente isolada.

Em 1961 na altura da invasão de Goa, Damão e Diu pelas tropas da União Indiana a sua população civil estava reduzida a quatro pessoas – duas mulheres muito idosas, um homem e uma criança. Alem destas quatro pessoas estavam aquartelados na ilha 30 soldados goeses e portugueses; a título de curiosidade podemos citar que um deles era o soldado Vassu Damuno Ganencar que morreu em combate no dia 18 de Dezembro de 1961 quando as forças indianas desembarcaram na ilha.

 

A igreja de Nossa Senhora das Brotas

 

A primitiva igreja foi totalmente reconstruída em 1683 e mais tarde sofreu novas e profundas beneficiações em 1729. Em 1960 por iniciativa do Governador Geral General Vassalo e Silva a Igreja de Nossa Senhora das Brotas e a Capela de S. Francisco de Assis foram beneficiadas com importantes obras de restauro. Dado o seu passado histórico a ilha constituía um verdadeiro património que devia ser preservado.

 

A Capela de S. Francisco de Assis

 

Na ilha existia uma fortaleza, cujas ruínas segundo uma pedra que se encontra na ilha indicam que foi construída em 2 de Julho de 1682 sendo Vice-Rei e Capitão General da Índia Francisco de Távora, Conde de Alvor.

 

Até a altura da ocupação da ilha em 18 de Dezembro de 1961 encontravam-se lá diversas inscrições que atestavam o seu passado histórico; o que será feito daquelas históricas inscrições depois das obras da construção da base ? A marinha indiana invocando motivos de segurança quis destruir todas as construções que lá existiam; mas o que eles de facto pretendem é fazer desaparecer tudo o que representa a história da ilha que está relacionada com a presença portuguesa. As autoridades indianas não sabem distinguir o que é o património cultural e confundem a política com a cultura !

Não resistimos a apresentar duas das mais significativas inscrições que se encontravam colocadas ao lado das portas da ilha.

Primeira Inscrição:

Graças a Deus – Francisco de Távora Conde D’Alvor do Conselho do Estado, Vice-Rei e Capitão General da Índia, mandou em 5 de Maio de 1682 edificar nesta ilha esta fortaleza por Amaro Simões Pereira, Primeiro Capitão-mor d’ella, o qual lhe lançou a primeira pedra em 2 de Junho do dito anno, e a poz defendável, antes de seis meses, com dezasseis canhões, e lhe concertou poços, fontes, tanque grande e a couraça real e o baluarte de S. Francisco com todas as suas serventias, muro, portaes, e esta entrada que coroou com esta cruz para sempre.

Angediva 3 de Março de 1683 – M. T. –Armas –M. S”.

 

 

A fortaleza de Angediva desenhada por A. Lopes Mendes

 

Segunda Inscrição:

Sendo Vice-Rei da Índia o ILL.mº e Exmº SR. Conde D’Alvor mandou fortificar esta ilha na era de 1682 por Amaro Simões Pereira, Primeiro Governador D’esta Praça e na era de 1731 ordenou o ILLmº e Exmº SR. Marquez de Távora o Vice-Rei da Índia ao Tenente Coronel o Governador António Pedro Reis e Silva, a reparasse de toda a sua ruína, o que se fez com toda a fortaleza e aceio possível.”

 

Em 1989 o Ministro Chefe de Goa Pratapsing Rane sem consultar ninguém tomou a iniciativa de vender a ilha a Marinha Indiana; como é que pode-se admitir que um governante tome uma decisão deste género ? Porventura as autoridades eleitas  e representativas da população de Goa foram auscultadas a pronunciarem sobre a venda da ilha ? A ilha apesar de ter sido vendida para uso da marinha indiana ela continua a ser parte integrante do território de Goa e jamais poderá ser alienada  seja a que pretexto for. Quando tanto se fala da PAZ, quando tanto se fala do Desarmamento Mundial a Índia está a construir a maior Base Aero Naval a Sul do Suez !

Qual a necessidade desta Base ? Quais as verdadeiras intenções dos governantes indianos ? Afinal o governo da Índia que tanto apregoa que é um país pacífico e amante da PAZ anda a esbanjar biliões de rupias com projectos megalómanos quando a grande maioria da sua população sofre de tantas carências na alimentação, na saúde, na educação e com milhões de desempregados. É esta a triste realidade em pleno século XXI. É este o país que se diz “pacifista”, respeitador do “direito internacional” e dos “direitos humanos”, da Carta das Nações Unidas, das Resoluções das Assembleias Gerais das Nações Unidas, mas que possui um dos maiores exércitos do mundo com o qual despende somas astronómicas e que tem sido o seu instrumento para invadir, ocupar e subjugar  pequenos territórios a sua volta!

 

Uma vista da ilha de Angediva com a capela de S. Francisco de Assis e ao fundo a Igreja de Nossa Sr.ª de Brotas

 

PS: Ao longo destes últimos anos tem vindo várias notícias mencionando que a Igreja de Nossa Senhora das Brotas tem sofrido importantes danos com as monções e que a capela de S. Francisco de Assis está há já muito tempo num estado  adiantado de ruína; já o ano passado o telhado da igreja tinha ficado em muito más condições; havendo gente interessada em fazer as obras de restauro na igreja e na capela as autoridades da Marinha Indiana não deixam que elas sejam feitas porque estão interessadas na ruína daquela histórica igreja que é um património de Goa. Faço um apelo aos nossos conterrâneos que chamem por todos os meios ao seu dispor a atenção das autoridades Indianas, da UNESCO, do novo Arcebispo de Goa e Damão Filipe Neri Ferrão e de outras organizações não governamentais de modo que seja feito tudo para preservar esta relíquia histórica que faz parte do património da nossa Goa.

Estando já a ultimar este artigo recebi um email com o título “Harassment towards Christians in the BJP-ruled State of Madhya Pradesh”, que depois de ter lido com atenção verifiquei a gravidade do que é relatado. Se até aqui pudesse supor que  a proibição ou limitação do acesso a ilha de Angediva e a autorização de fazer as obras de restauro e conservação da Igreja de Nossa Senhora de Brotas e da Capela de S. Francisco de Assis estava relacionada únicamente com a segurança, agora não tenho dúvidas nenhumas que tudo passa por uma atitude planeada e concertada contra as minorias religiosas na Índia. É esta a Índia “secular e democrática” em pleno século XXI.  

 

Para confirmar as restrições impostas pela marinha indiana transcrevemos com a devida vénia a notícia veiculada por Melvyn Misquita  no jornal Herald de Goa datado de 4.2.2004.

PILGRIMS AT ANJEDIVA CHURCH: Hundreds of Goan devotees planning to visit the historic Anjediva island at the Navy's Sea Bird site off  Karwar for the feast of Nossa Senhora das Brotas Church on February 2 were aware of  restriction to their entry. Although devotees-for the first time in five centuries-now had direct access to the island with the newly constructed breakwater from the mainland to Anjediva, obstacles certainly came aplenty. A three-hour wait in the hot sun outside the Navy gates to gain entry to the island and an hour-long walk across the breakwater filled with rubble, were some of them. About a hundred dejected Goan devotees returned home, without entering the island. (Melvyn Misquita in Herald).

 

Francisco Monteiro